Destaque da Semana

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sismo de Lisboa - 1755

ESPECIAL  do C&M
TERREMOTO de LISBOA - 1755
O evento que mudou uma época

Em novembro de 1755, no auge da riqueza levada pelo ouro e por outras preciosidades do Brasil Colônia, Lisboa, capital de Portugal, se transforma em palco de de um dos maiores terremotos registrados em todos os tempos. A magnitude do tremor seria registrada hoje acima de 9 na Escala Richter. Até o Caribe sentiu efeitos do terremoto. Riquezas foram arruinadas, o mercado foi interrompido, a economia ficou arrasada.


O Grande Terremoto (ou Terramoto) de Lisboa aconteceu no dia 1º de Novembro de 1755, resultando na destruição quase completa da cidade de Lisboa, e atingindo ainda, grande parte do litoral do Algarve. O sismo foi seguido de um enorme maremoto (Tsunami) - que se crê tenha originado ondas que tenham atingido a altura de 20 metros - e de múltiplos incêndios, tendo feito certamente mais de 90 mil mortos (há quem aponte muitos mais). Foi um dos sismos mais mortíferos da História, marcando o que alguns historiadores chamam a pré-história da Europa Moderna. Os geólogos modernos estimam que o sismo de 1755 atingiu a magnitude 9 na escala de Richter.


O terremoto de Lisboa teve, também, um enorme impacto político e sócio-econômico na sociedade portuguesa do século XVIII, dando origem aos primeiros estudos científicos do efeito de um sismo numa área alargada, marcando assim o nascimento da moderna Sismologia. O acontecimento foi largamente discutido pelos filósofos iluministas, como Voltaire (imagem abaixo), inspirando desenvolvimentos significativos no domínio da teodiceia e da filosofia do sublime.


- Voltaire -

Para piorar a tragédia, o abalo ocorreu no dia do feriado do de Todos-os-Santos. 


Para uma cidade que ainda tinha sua iluminação totalmente por velas, e num dia tão santo, em que todas as igrejas estavam ricamente e portentosamente ornamentadas e com muitas velas acesas, para receber multidões de fiéis, não tardou para que os vultuosos incêndios se proliferassem por toda Lisboa.

Lisboa sofreu com três tragédias: Terremoto, Maremoto e Incêndios

O epicentro do evento não é conhecido com precisão, havendo diversos sismólogos que propõem locais distanciados de centenas de quilômetros.

No entanto, todos convergem para um epicentro no mar, entre 150 a 500 quilômetros a sudoeste de Lisboa.

Observe o mapa ao lado...

Devido a um forte sismo, ocorrido em 1969 no Banco de Gorringe, este local tem sido apontado como tendo forte probabilidade de aí se ter situado o epicentro em 1755.


Relatos da época afirmam que os abalos foram sentidos, consoante o local, durante seis minutos à duas horas e meia, causando fissuras enormes de que ainda hoje há vestígios em Lisboa. 

O padre Manuel Portal é a mais rica e completa fonte sobre os efeitos do terramoto, tendo descrito, detalhadamente e na primeira pessoa, o decurso do terramoto e a vida lisboeta nos meses que se seguiram. Abaixo um pequeno trecho de suas anotações:

-“A intensidade do terramoto em Lisboa e no cabo de São Vicente estima-se entre X-XI na escala de Mercalli.

Com os vários desmoronamentos os sobreviventes procuraram refúgio na zona portuária e assistiram ao recuo das águas, revelando o fundo do mar cheio de destroços de navios e cargas perdidas. 

Poucas dezenas de minutos depois, vagões de ondas, que atualmente se supõe ter atingido pelo menos seis metros de altura, havendo relatos de ondas com mais de 10 metros, fez submergir o porto e o centro da cidade, tendo as águas penetrado até mais de 250 metros além terra.

Nas áreas que não foram afetadas pelo mar e suas mortíferas ondas, o fogo logo se alastrou, e os incêndios duraram pelo menos cinco dias. Todos tinham fugido e não havia quem o apagasse”.


Lisboa não foi a única cidade portuguesa afetada pela catástrofe. Todo o sul de Portugal, sobretudo o Algarve, foi atingido e a destruição foi generalizada. Além da destruição causada pelo sismo, o maremoto que se seguiu destruiu fortalezas costeiras e habitações, registrando-se ondas com até 30 metros de altura. As ondas de choque do sismo foram sentidas por toda a Europa e norte da África. 


As cidades marroquinas de Fez e Meknès sofreram danos e perdas de vida consideráveis. Os maremotos originados pela movimentação tectónica varreram locais desde do norte de África (como Safim e Agadir) até ao norte da Europa, nomeadamente até à Finlândia (através de seichas) e através do Atlântico, afectando os Açores e a Madeira e locais tão longínquos como Antígua, Martinica e Barbados. Diversos locais em torno do golfo de Cádis foram inundados. O nível das águas subiu repentinamente em Gibraltar e as ondas chegaram até Sevilha através do rio Guadalquivir, Cádis, Huelva e Ceuta.


De volta ao palco principal da tragédia: De uma população de 275 mil habitantes em Lisboa, crê-se que 90 mil morreram, 900 das quais vitimadas diretamente pelo maremoto (Outros 10 mil foram vitimados em Marrocos). Cerca de 85% das construções de Lisboa foram destruídas, incluindo palácios famosos e bibliotecas, conventos e igrejas, hospitais e todas as estruturas.


Várias construções que sofreram poucos danos pelo terramoto foram destruídas pelo fogo que se seguiu ao abalo sísmico, causado por lareiras de cozinha, velas e mais tarde por saqueadores em pilhagens dos destroços.


A recém-construída Casa da Ópera (imagem abaixo), aberta apenas seis meses antes, foi totalmente consumida pelo fogo. O Palácio Real, que se situava na margem do Tejo, onde hoje existe o Terreiro do Paço, foi destruído pelos abalos sísmicos e pelo maremoto. Dentro, na biblioteca, perderam-se 70 mil volumes e centenas de obras de arte, incluindo pinturas de Ticiano, Rubens e Correggio. O precioso Arquivo Real com documentos relativos à exploração oceânica e outros documentos antigos também foram perdidos.


O terremoto destruiu ainda as maiores igrejas de Lisboa, especialmente a Catedral de Santa Maria, e as Basílicas de São Paulo, Santa Catarina, São Vicente de Fora e a da Misericórdia. As ruínas do Convento do Carmo ainda hoje podem ser visitadas no centro da cidade. O túmulo de Nuno Álvares Pereira, nesse convento, perdeu-se também. O Hospital Real de Todos os Santos foi consumido pelos fogos e centenas de pacientes morreram queimados. Registos históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo foram perdidos, e incontáveis construções foram arrasadas (incluindo muitos exemplares da arquitetura do período Manuelino em Portugal).


A família real portuguesa escapou à catástrofe. O Rei D. José I (imagem ao lado) e a corte tinham deixado a cidade depois de assistir a uma missa ao amanhecer, encontrando-se em Santa Maria de Belém, nos arredores de Lisboa, na altura do terremoto.

A ausência do rei na capital deveu-se à vontade das princesas de passar o feriado fora da cidade.

Depois da catástrofe, D. José I ganhou uma fobia a recintos fechados e viveu o resto da sua vida num complexo luxuoso de tendas no Alto da Ajuda, denominado como Real Barraca da Ajuda, em Lisboa. 

Tal como o rei, o Marquês de Pombal, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e futuro primeiro-ministro, sobreviveu ao terramoto. Com o pragmatismo que caracterizou a sua futura governação, ordenou ao exército a imediata reconstrução de Lisboa.

Conta-se que à pergunta dos seus comandados de "E agora?" respondeu imdeiatamente: "Enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos" mas esse diálogo é provavelmente apócrifo.

Entretanto, a sua rápida resolução levou a organizar equipes de bombeiros para combater os incêndios e recolher os milhares de cadáveres espalhados pela cidade para evitar o surgimento de epidemias.

Lisboa em reconstrução

O Rei e os ministros encomendaram aos arquitetos e engenheiros reais, e em menos de um ano depois do terremoto já não se encontravam em Lisboa tantas ruínas e os trabalhos de reconstrução iam adiantados. O Rei desejava uma cidade nova e ordenada, com grandes praças e avenidas largas e retilíneas. Esses elementos marcaram a planta da nova cidade. Reza a lenda ter sido à época perguntado ao Marquês de Pombal para que serviam ruas tão largas, ao que este respondeu:  -"Que um dia, no futuro, hão-de achá-las estreitas"….

No novo centro da cidade, hoje conhecido por Baixa Pombalina, foram construídos os primeiros edifícios mundiais com proteções à prova de sismos (antí-sismicas),e que foram testadas em modelos de madeira, utilizando-se tropas em marchas para simular as vibrações sísmicas.

O terremoto de Lisboa abalou muito mais que a cidade e os seus edifícios. Lisboa era a capital de um país católico, com grande tradição de edificação de conventos e igrejas e empenhado na evangelização das suas colônias.


O fato do terramoto ocorrer em dia santo e destruir várias igrejas importantes levantou muitas questões religiosas por toda a Europa. Para a mentalidade religiosa do século XVIII, foi uma manifestação da ira divina de difícil explicação.


Na política, o terremoto foi também devastador. O ministro do Rei Dom José I, o Marquês de Pombal era favorito do rei, mas não do agrado da alta nobreza, que competia pelo poder e favores do monarca.

Depois de 1º de Novembro, a eficácia da resposta do Marquês do Pombal (cujo título lhe é atribuído em 1770) garante-lhe um maior poder e influência perante o rei, que também aproveita para reforçar o seu poder e consolidar o Absolutismo. Isto leva a um descontentamento da aristocracia que iria culminar na tentativa de regicídio e na subsequente eliminação dos Távoras.

- A população sobrevivente foi acomodada em barracas montadas nas cercanias da cidade, enquanto a reconstrução ocorria - 

Para além do agravamento das tensões políticas em Portugal, a destruição da cidade de Lisboa frustrou muitas das ambições coloniais do Império Português de então.

A tragédia em Lisboa  não foi o maior evento natural até então. O sismo de Shaanxi ou sismo do Condado de Hua é o sismo mais mortífero da história recente, no qual morreram aproximadamente 830.000 pessoas. Ocorreu na manhã do 23 de janeiro de 1556, em Shaanxi, na China.

- Mais destroços da cidade de Lisboa (1755) - 

Porém, o maremoto que se seguiu ao sismo de 1755 foi o maior maremoto de que há registo histórico no Oceano Atlântico, causando grande mortandade em todas as costas atingidas.

- 1755: O maior maremoto registrado no Atlântico - 

O terremoto que arrasou Lisboa em 1755 foi inspiração para diversos livros e materiais didáticos espalhados pelo mundo (imagem abaixo), e também inspirou o livro do historiador britânico Edward Paice. 


Em entrevista ao programa Milênio, o autor esclarece como foi o terremoto e o maremoto que arrasaram a capital portuguesa e mudaram toda a História. O historiador compilou todos os fatos e publicou no livro "A Ira de Deus".


O Camisas & Manias disponibiliza abaixo, a entrevista (com breve resumo do evento sobre Lisboa)... São 25 minutos bacanas sobre o assunto:


Uma matéria especial centrada em um assunto histórico trágico, triste mas que mudou o mundo em relação à sismologia e suas consequências. Espero que tenham gostado. Fico por aqui, como sempre, agradecendo muito sua visita neste espaço.

OBRIGADO pela VISITA!!!

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